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  • Os benefícios das isoflavonas de soja na alimentação actual

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    Este artigo descreve o papel das isoflavonas sobre a saúde humana.
    Aborda as descobertas científicas nas áreas das doenças crónicas, concretamente na doença cardiovascular, certos cancros, osteoporose e sintomas menopáusicos.
    As isoflavonas são os fitoestrogénios mais estudados.
    Existe um crescente interesse no estudo da dieta e estilo de vida como factores importantes que podem suportar mudanças significativas.

    Há diferenças óbvias entre os padrões alimentares do Ocidente e Oriente, neste último a dieta é reduzida em gordura e rica em fibra comparativamente à maioria das dietas ocidentais.
    A cozinha Oriental inclui normalmente, menos alimentos de origem animal relativamente ao Ocidente.
    Devido a estas diferenças nos hábitos alimentares, que podem contribuir para as grandes variações nas taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares entre o Oriente e o Ocidente, um crescente número de estudos centram-se nos produtos de soja e nos seus componentes fitoquímicos, nomeadamente, as isoflavonas.

    Os componentes bioactivos da soja são: aminoácidos, péptidos, fibra e isoflavonas.
    Estes encontram-se de forma natural na proteína da soja e as isoflavonas presentes são: genisteína, daidzeína e gliciteína.
    No entanto, é necessário precaução para concluir que os efeitos serão positivos para todas as idades no ser humano.
    Os factores sociais e do meio ambiente também actuam de modo crucial. Esta revisão pretende condensar o que se sabe de mais importante sobre as isoflavonas de soja e expor a sua relevância e precauções para a nutrição humana principalmente em populações alvo.
    As isoflavonas são hormonas naturais existentes em muitas plantas.

    Foram identificados pelo menos 20 compostos em cerca de 300 plantas: alho, salsa, soja, trigo, arroz, feijões, cenouras, batatas, tâmaras, romãs, cerejas, maçãs e no café.
    Estes compostos fitoestrogénios são relativamente menos potentes que os estrogénios naturais.
    Os mais estudados são as isoflavonas (existentes no feijão de soja e outros legumes) e os lignanos (resultantes da degradação, pela flora microbiana intestinal, de compostos existentes em grãos, fibras, sementes, numerosos frutos e vegetais) e os coumestanos, por sua vez, encontram-se no trevo roxo e nas sementes de girassol, entre outros. (1-3)

    Os principais fitoestrogénios são as isoflavonas (genisteína, daidzeína, biochanina A), os lignanos (enterodiol e enterolactona) e os coumestanos (coumesterol). (1-4)
    Os fitoestrogénios constituem um grupo de compostos não esteróides que comportam-se como agonistas e antagonistas dos estrogéneos, que têm um papel semelhante ao das hormonas femininas estrogénicas, com uma acção global sobre os diferentes sintomas da menopausa. (5,6)
    Os principais fitoestrogénios com importância em nutrição e que podem ter maior peso na saúde humana são as isoflavonas de soja, em que os rebentos de soja apresentam maiores concentrações dessa substância activa.
    As isoflavonas são os fitoestrogénios mais estudados.


    No Oriente a dose estimada de consumo varia entre 20 e 50 mg/dia, enquanto que no Ocidente essa dose é menor que 1mg/dia. (5,6)
    Isto verifica-se pelos níveis de excreção das formas activas das isoflavonas, representadas na Tabela I, entre homens e mulheres do Japão e Reino Unido. (5)
    Sendo assim, será conveniente identificar as origens das isoflavonas de soja.

    tabela

    A soja (Soja hispida) é um planta herbácea da Família das fabaceas, cuja utilização terapêutica está ligada ao seu teor em isoflavonas.
    É uma pequena planta herbácea anual, de folhas tripartidas que existe apenas como planta cultivada. O fruto, por sua vez, é uma vagem que contém grãos de forma oval.
    Utilizada desde há muito na alimentação asiática sob formas muito variadas ( sementes, leite, queijo ou tofu, produtos de fermentação…), a soja só muito recentemente passou a ser conhecida do Ocidente. (1,5)
    Do grão da soja são extraídas substâncias diferentes, nomeadamente o óleo refinado, rico em ácidos gordos é utilizado por esta razão na alimentação por perfusão; a farinha, rica em proteínas vegetais, com baixo teor em colesterol, sendo utilizada por indivíduos com uma dieta hipocolestrolémica e desde há pouco tempo, as isoflavonas. (1,5,6)
    Estas são convertidas pelas bactérias intestinais em genisteína e daidzeína, equol.
    As duas principais isoflavonas são a genistina e a daidzina que, sob a influência de uma betaglucosidase produzida pela flora intestinal, vão ser transformadas em genisteína e daidzeína (formas activas), que constituem os fenóis heterocíclicos com estrutura análoga à dos estrogéneos.
    A semi-vida no plasma sanguíneo da genisteína e daidzeína são de 7-8 horas e a semi-vida urinária é de 24horas (Figura 1).
    (1-6)

    soja11


    Estudos epidemiológicos têm sugerido que uma dieta com um alto teor de fitoestrogénios pode estar associada à baixa incidência de cancro da mama, do endométrio, da próstata e colorectal, o que parece ser resultado deste tipo de alimentação, uma vez que investigações científicas têm demonstrado um efeito inibidor sobre o crescimento de linhagens celulares de cancro em humanos e nos animais de laboratório.
    Todavia, ensaios clínicos mostraram uma diminuição nos níveis plasmáticos de proteína transportadora de esteróis sexuais e supressão da hormona luteinizante (LH). (1,7,8)
    Estudos clínicos e epidemiológicos mostraram, também, que as mulheres asiáticas que residem no seu país de origem e praticam uma alimentação rica em soja apresentam menos sintomas e afrontamentos (Síndroma Climatérico), sofrem menos de osteoporose e doenças cardiovasculares comparativamente àquelas que consomem uma dieta tipo ocidental. (5-7)

    soja21

    Esta constatação motivou diversas investigações, que mais à frente serão demonstradas.
    Os fitoestrogénios, são compostos naturais que se encontram nos alimentos com actividade semelhante à dos estrogéneos, ou seja, comportando-se como estrogéneos de baixa actividade, cerca de 1000 a 10.000 vezes menos activos que o estradiol (Figura 2);(3,7) actuam através da sua fixação no organismo humano sobre os receptores dos estrogéneos, imitando ,assim, os efeitos hormonais destes .

    Os fitoestrogénios e as suas implicações clínicas:

    Prevenção do cancro:
    No que respeita as actividades biológicas das isoflavonas e às provas clínicas que as sustentam, distingue-se nomeadamente a sua actividade a longo prazo sobre a sua acção na redução do risco de cancro da mama. (1,8,9)
    As isoflavonas têm potencialidades anticancerígenas e os primeiros estudos concentram-se na actividade estrogénica, particularmente na capacidade de reduzir o risco de cancro da mama. (1,8)
    Posteriormente alguns estudos revelaram que os seus efeitos sobre a prevenção ou redução do risco de cancro podem ser mediados por mecanismos não hormonais.
    Os mecanismos propostos para estas acções incluem: a) inibição de DNA topo-isomerase b) supressão da angiogénese c) inibição da indução à diferenciação em linhas celular para o cancro e a d) indução da apoptose.
    Em cobaias de laboratório, uma meta-análise demonstrou que a administração de produtos de soja, produziu um diminuição na incidência ou na multiplicidade de tumores em alguns tipos de cancro da mama, próstata, fígado, esófago e pulmão. (10,11)

    Alguns estudos realizados, comprovam acção das isoflavonas sobre o risco de cancro da mama, nomeadamente um estudo, em que os autores mediram as concentrações de fitoestrogénios no soro em três grupos de mulheres inglesas: mulheres saudáveis (n=13), com cancro da mama tratado há mais de 3 anos (n=10) e com cancro da mama em evolução (n=13).
    Foi observado que as mulheres saudáveis apresentavam taxas de genisteína e daidzeína significativamente mais elevadas que as mulheres pertencentes aos dois outros grupos. Assim, baixas concentrações de fitoestrogénios seriam um marcador de risco de cancro da mama. (10)
    Outro estudo, evidenciou a relação entre a ingestão de fitoestrogénios, medida pela excreção urinária das 7 horas e o risco de cancro da mama, em 144 mulheres australianas, com uma idade média de 54 anos: 72 com cancro da mama na 1ª fase recentemente diagnosticado e 72 no grupo testemunha.
    Relacionou-se uma forte excreção de equol e enterolactona (metabolitos dos fitoestrogéneos) com uma redução importante do risco de cancro da mama. (11)
    Alguns autores, nomeadamente Pl Horn-Ross et al, colocam a hipótese de um consumo acrescido em fitosestrogénios poder atenuar as consequências nefastas de uma adiposidade importante no desenvolvimento do cancro da mama em mulheres pós-menopaúsicas.
    Com efeito, a obesidade é considerada um factor de risco importante: após a menopausa, a primeira fonte de estrogéneos endógenos é a conversão de androgéneos em estrogéneos no tecido adiposo.
    Como os fitoestrogénios se ligam competitivamente aos receptores dos estrogéneos sem produzir uma resposta estrogénica importante, um aporte acrescido destas substâncias diminuiria o risco de cancro da mama em mulheres que apresentam excesso de peso.
    Este facto explicaria em parte, a razão das mulheres hispânicas da Califórnia, que consomem fitoestrogénios em quantidade importante, sofrerem menos de cancro na mama, embora apresentem uma adiposidade abdominal importante, portanto a actividade anticancerígena das isoflavonas de soja passaria igualmente por outros mecanismos de acção. (8)

    Uma das principais isoflavonas activas, a genisteína, num estudo levado a cabo por Messina et al, demonstrou que “in vitro” existia uma inibição do crescimento de numerosas células cancerosas, estrogéneo-dependentes ou não.

    A explicação proposta deve-se, mais uma vez, à sua capacidade em exercer as seguintes acções: inibição da proteína-quinase C e da tirosina-quinase, enzimas associadas à transferência intercelular dos produtos oncogénicos provenientes do desenvolvimento de tumores; inibição da ADN topo-isomerase e da angiogénese, necessária à constituição do sistema capilar que permite o desenvolvimento e multiplicação das células cancerosas e também devido às propriedades antioxidantes, protegendo desse modo as células dos efeitos dos radicais livres. (9)

    Osteoporose e redução do colesterol:
    A osteoporose é uma das doenças mais caras, custa por ano 5 bilhões de euros e está classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma das dez doenças mais importantes do mundo.
    Estima-se que o número de pessoas com osteoporose duplicará nos próximos 40 anos. (6)New England Journal of Medicine”, os resultados de uma meta-análise.
    Os investigadores pesquisaram os efeitos da proteína de soja nos lípidos séricos em humanos.
    Numa análise de 38 estudos em 730 indivíduos foi demonstrado que a ingestão quotidiana de proteínas de soja, numa dose média de 47g, está associada a uma redução do colesterol de 12.9% e de triglicéridos de 10.5%.
    Os voluntários com taxas iniciais normais tiveram uma redução do colesterol total de 7.7%, enquanto que os indivíduos com hipercolesterolémia tiveram uma resposta mais significativa. (13) Cruz et al, concluíram que as isoflavonas desempenham um papel importante nos efeitos hipocolesterolemiante das proteínas da soja. (14) Provavelmente, o maior responsável pela descoberta dos benefícios potenciais da soja para a saúde foi o Dr. Jaames W. Anderson e colaboradores, ao publicarem em Agosto de 1995, no “

    A terapia de reposição estrogénica é altamente eficaz em reduzir a velocidade de perda do osso, como também em promover a remodelação do mesmo.
    Dados epidemiológicos sugerem que há menos incidência de osteoporose observada nas mulheres asiáticas, em detrimento de cerca de um terço observada nas mulheres ocidentais, o que seria uma consequência benéfica de um alto consumo de soja. Alguns autores definem que uma actividade biológica a médio prazo das isoflavonas de soja exercem uma acção tanto sobre a osteoporose como sobre o metabolismo do colesterol. (15,16)
    No que toca a prevenção da osteoporose, estudos bastante consistentes referem que as isoflavonas de soja , nomeadamente a ipriflavona, podem auxiliar na manutenção da densidade óssea nas mulheres menopaúsicas. (7)
    Num estudo de Valente et al, (7) verificaram em ensaios duplamente cegos em mulheres menopáusicas, com osteopo­rose parcial, um aumento da densidade óssea após 1 ano de ingestão com ipriflavo­na.
    As isoflavonas possuem uma estrutura química similar à da ipriflavona e a daidzeína representa, pelo menos, 10% dos metabolitos da ipriflavona. As isoflavonas de soja, em particular a daidzeína podem, assim, auxiliar na manutenção da densi­dade óssea nas mulheres menopáusicas. (7)
    Um estudo exaustivo , realizado por Erdman et al,(15) avaliou simultaneamente o efeito das isoflavonas de soja sobre o perfil lipídico sanguíneo e sobre a densidade óssea. Incluiu 66 pacientes de ambulatório, hipercolesterolémicas, menopaúsicas durante 6 meses.
    Tratou-se de um estudo duplamente cego, randomizado, com grupos paralelos e com 3 controles ao longo da duração do ensaio.
    Após um período de controle de 14 dias, durante o qual as pacientes foram submetidas a um regime hipolipídico de acordo com os padrões do Natio­nal Cholesterol Education Program 1º nível, foram randomizadas num dos 3 grupos seguintes:

    Grupo CNFDM : regime 1º nível e 40g de proteínas por dia sob a forma de caseína e leite desnatado em pó (Casein Non Fat Dry Milk),
    Grupo ISP56 : regime 1º nível e 40g de proteínas por dia sob a forma de isolado proteico de soja contendo 1,39 mg de isoflavonas por grama de proteína, ou seja, um aporte de 56mg de isoflavonas por dia.
    Grupo ISP90 : regime 1º nível e 40g de proteínas por dia sob a forma de isolado proteico de soja contendo 2,25mg de isoflavonas por grama de pro­teína, ou seja, um aporte de 90 mg de isoflavonas por dia.

    A massa e a densidade óssea, locais e gerais, foram avaliadas e os resultados foram satisfatórios verificando que o colesterol não-HDL diminuiu nos grupos ISP56 e ISP90 em comparação com o grupo CNFDM (p<0.5).
    O colesterol HDL aumentou nos grupos ISP56 e ISP90 (p<0,05). (15)

    Observaram-se aumentos significativos, quer de massa óssea quer de densidade óssea ao nível da raquis lombar, mas apenas no grupo ISP90, comparativamente ao grupo controle (p<0,05).
    Ou seja, a toma de proteínas de soja em 2 concentrações de isoflavonas (56 mg/dia e 90 mg/dia) durante 6 meses, pode diminuir os factores de risco cardio­vascular nas mulheres menopáusicas.
    Contudo, apenas os produtos fortemente concentrados em isoflavonas (90 mg/dia) são susceptíveis de permitir uma protecção contra a osteoporose raquidiana. (15,17)
    Outro estudo, de Dalais et aI,(18) duplamente cego, os autores randomizaram uma população de 52 mulheres menopáusicas em 4 grupos: um grupo soja (45g/dia de farinha de soja, rica em fitoestrogénios) contra um grupo trigo (45g/dia, pobre em fitoestrogénios), um grupo sementes de linho (45g/dia, rica em fitoestrogénios) contra um grupo trigo (45g/dia, pobre em fitoestrogénios). Após 6 meses, apenas o grupo soja apresentava um aumento significativo do conteúdo mineral ósseo, que passou de 2573 a 2713g. Deste modo, parecem ser os fitoestrogénios presentes na soja que agem sobre a massa óssea na pós-menopausa. (18)

    Menopausa: as isoflavonas exercem acção, digamos a curto prazo, sobre a sintomatologia da pré-menopausa e da pós-menopausa. (19)
    Para o efeito, conhecer os mecanismo de acção dos estrogénios é de extrema importância: os estrogénios (E) exercem o seu efeito através de 2 tipos de receptores – ERa e Erb – que apresentam diferentes distribuições nos tecidos, de modo que as b são mais ubíquas que as a. O primeiro expressa-se nos tecidos não reprodutores, tais como: o cérebro, hipófise, tracto urinário, aparelho circulatório, próstata, tecidos reprodutivos como o ovário e testículo.

    As Er a por sua vez, expressam-se no útero, fígado, mama e rim.
    Contudo ambos expressam-se no ovário, cérebro, osso e sistema cardiovascular e mamas. (19)
    As isoflavonas são potentes agonistas Erb e fracos a o que permite classificá-las como bloqueadoras ou moduladoras naturais selectivas do receptor estrogénico (SERMs “selective estrogen receptor modulators”) por estas razões, as isoflavonas preconizam a sua acção sobre o osso, cérebro, sistema cardiovascular e ovário, o que explica a sua utilidade para: a) melhorar os sintomas vasomotores; b) prevenir a osteoporose; c) aparentemente reduzir o risco de cancro da mama; d) induzir o perfil lipídico, ou seja, redução do colesterol total, LDL e triglicéridos e um ligeiro aumento das HDL. (19,20)
    No que toca à sua actividade a curto prazo , nomeadamente, acções estrogénicas e anti-estrogénicas e como resultado da sua acção sobre a sintomatologia da pré-menopausa e da pós-menopausa, alguns estudos realizados evidenciam essa actividade, contudo demonstraram que seria tanto mais eficaz quanto maior o tempo do estudo, ou seja, as isoflavonas parecem ter, assim, um resultado benéfico sobre os afrontamentos, desde que o ensaio tenha uma duração suficiente. Isto foi demonstrado num estudo piloto (21), realizado com 9 mulheres a ingerir 160 mg/dia de isoflavonas em 12 semanas:

    Cada uma registou diariamente o número de acessos de calor (afrontamentos) e o “score menopausa”(Green score). Após 12 semanas, estes 2 parâmetros de avaliação passaram, respectivamente, de 6,7 a 3,4 e de 18,7 a 9,3. (22) Outros estudos evidenciam que alimentos enriquecidos ou suplementos terão um excelente efeito sobre a redução dos afrontamentos. Alguns autores demonstraram uma redução significativa, de 40%, no aparecimento de afrontamentos quando a alimentação das mulheres estudadas (n=28, idade média=54) era suplementada com 45g de farinha de soja (taxa de isoflavonas desconhecida). (23) Os restantes sintomas da menopausa melhoraram também de forma significativa. (23-25)

    Sabe-se que as isoflavonas de soja influenciam a função hormonal.
    Demonstrou-se que uma dieta contendo 60 g de proteínas de soja por dia ( 46g de isoflavonas) era capaz de afectar o ciclo menstrual e os níveis da hormona luteinizante e da hormona estimuladora dos folículos, nas mulheres adultas na pré-menopausa, (23,24) embora os efeitos na função ovárica sejam variáveis e possam ser influenciados por factores como etnicidade, tipo de soja, nível de consumo de fitoestrogéneos e composição dietética. (11,25) Um estudo realizado com 28 mulheres pós-menopáusicas saudáveis com índice de massa corporal (IMC) < 30 e que não fizeram terapia hormonal de substituição nos últimos seis meses, demonstrou que a ingestão de 25 g de soja por dia, contendo 107 mg de isoflavonas, têm resultados benéficos sobre o tónus vasomotor, independentes das acções antioxidantes e da diminuição do perfil lipídico.
    Este grupo foi randomizado e recebeu, sequencialmente, três diferentes suplementos em pó: 1) “Soy +” (25 g de proteína de soja isolada contendo 107,67 mg de isoflavonas de soja/dia); 2) “Soy -” (24 g de proteína de soja lavada com etanol com 1,82 mg/25 g/dia de isoflavonas); 3) “TMP” (proteína total do leite sem isoflavonas. (26) Precauções: Na década de 40 os criadores de carneiros da Austrália Oriental depararam-se com problemas de reprodução. As ovelhas não conseguiam conceber, então descobriu-se que era o trevo, rico em isoflavonas, que diminuía a sua fertilidade. Este facto levantou a hipótese de a ingestão de grandes quantidades de fitoestrogénios poder ter também efeitos secundários nos seres humanos, por exemplo, na função tiroideia e na fertilidade. (27,28,29).

    Será quase impossível comer alimentos ricos em fitoestrogénios suficientes para chegar próximo das quantidades ingeridas pelas ovelhas, possivelmente com excepção dos vegetarianos ou veganos. Além disso, as quantidades geralmente recomendadas para benefícios na saúde como, por exemplo, para a redução do colesterol, são consideradas seguras. Actualmente pesquisam-se as Doses Diárias Recomendadas da sua ingestão para todos os grupos etários, todavia os cientistas pensam que é seguro ingerir até 60 mg de isoflavonas por dia. (30)

    É necessário ter em atenção para que as isoflavonas sejam bem absorvidas pelo organismo pois, têm que ser primeiro decompostas pelas bactérias no intestino. Estudos recentes demonstraram que seguir uma dieta rica em legumes, com muitos hidratos de carbono e baixa gordura, favorece a absorção das isoflavonas, sem dúvida porque uma dieta deste tipo favorece um bom equilíbrio de bactérias no intestino. Outra prova do papel das bactérias é que o tratamento com antibióticos, que eliminam as mesmas, pode impedir a absorção adequada dos fitosestrogénios. Portanto, o seu consumo deverá ser integrado numa alimentação rica em hidratos de carbono e pobre em gorduras para que o grupo alvo tome melhor partido dos efeitos benéficos e comprovados em adultos. Contudo, nas crianças devido à imaturidade intestinal o equol não é produzido, porém os outros compostos activos (genisteína e daidzeína) são-no tendo efeito cumulativos nos tecidos gordos. (31,32)

    Nas crianças de muito tenra idade essa flora intestinal não está totalmente desenvolvida e mesmo assim, verifica-se maturidade fisiológica suficiente para que a hidrolização de genisteína e daidzeína sejam detectadas no plasma com excepção do equol. (33) Num estudo encomendado pelo Ministério da Saúde da Nova Zelândia em 2003, a fim de analisar a quantidade de fitoestrogénios presentes em fórmulas infantis à base de soja, investigaram que crianças que consumiam essas mesmas fórmulas infantis apresentavam níveis elevados de isoflavonas no plasma. (34)
    Num outro estudo realizado, os bebés entre 4-6 meses (sete no grupo dos que ingeriam soja e sete no grupo controle) as isoflavonas genisteína, daidzeína e o gliciteína foram detectados na urina de todos as crianças que eram alimentadas com fórmulas infantis à base de soja. (35) Ao encontro dessa pesquisa, há um número crescente de relatórios recentes que sugerem que em animais de laboratório, os fitoestrogénios têm efeitos adversos em relação a carcinogénese, à função reprodutora, à função imune, e às doenças da tiróide.(36,37)
    É verdade que muitos poucos estudos têm analisado os efeitos dos fitoestrogénios nas crianças, contudo alguns referem e permitem calcular que a exposição em crianças com 4 meses de idade alimentadas exclusivamente com alimentos à base de proteína de soja situa-se entre os 6 a 11 mg/kg peso corporal por dia. Este tipo de exposição é superior em ordem de magnitude à dose ingerida por adultos com quantidades semelhantes de isoflavonas ingeridas.(38,39)

    Porém, uma revisão concluiu que os efeitos das isoflavonas da soja são complexos e não necessariamente uniformes em todas as pessoas, ou mesmo benéficos em todos os órgãos-alvo (22). Níveis diferentes de ingestão podem ter efeitos diferentes; ingestões excessivas podem mesmo ter algumas propriedades indutoras de cancro (22). Por estas razões, alguns autores aconselharam precaução no uso de suplementos isolados de isoflavonas, até os seus efeitos terem sido completamente explorados. (29,37).
    Actualmente , várias questões têm surgido sobre os efeitos das isoflavonas de soja nas crianças, devido a estes compostos possuirem uma variedade de efeitos hormonais e não hormonais, as formulações de soja apresentam níveis significativos de isoflavonas rondando os 155.1 mg/g até 281.4 mg/g e crianças que consomem fórmulas infantis com soja têm um elevado nível plasmático de isoflavonas. (39,40)
    As concen­trações em circulação de isoflavonas, nos bebés alimentados com soja, também excedem em muito os níveis plasmáticos do estradiol no princípio da vida e podem ser suficientes para exercer efeitos biológicos (32). Estes podiam prejudicar potencialmente o desenvolvimento sexual e as sub­sequentes fertilidade e função reprodutora, (39) embora este facto continue por estabelecer. (31)

    Uma investigação realizada pelo Committee on Toxicity of Chemicals in Food, Consumer Products and the Environment não encontrou evidências de que o uso de uma fórmula de soja para bebés tivesse quaisquer efeitos adversos. (33) Todavia, também recomendou que deviam ser realizadas mais investigações sobre os efeitos a longo prazo do consumo de fitoestrogéneos por bebés. (31,33)
    Apesar da ausência de pesquisas científicas adequadas que quantifiquem o risco nas crianças, discute-se que seja feito com precaução o consumo destes compostos activos nessa fase da vida e que, também por precaução, sejam realizados mais estudos com esse intuito. (41)
    É importante que os pais percebam a diferença entre fórmulas infantis de soja e bebidas à base de soja ou enriquecidas. Contudo, pequenas quantidades utilizadas nas preparações de alimentos serão aceitáveis, porém bebidas enriquecidas com soja ou à base dela, não deverão ser consumidas em vez de leite materno ou fórmulas comerciais infantis, pelas mesmas razões que as crianças não devem consumir leite de vaca inteiro em vez de fórmulas comerciais para lactentes.

    Comentário final:

    Existem já vários estudos publicados sobre os fitoestrogénios, principalmente as isoflavonas, que comprovam a existência de uma acção benéfica destas substâncias na manutenção de um estado fisiológico óptimo na mulher pré e pós menopaúsica, e no alívio de outras sintomatologias.
    Não obstante, o resultado será ideal associado a estilos de vida saudáveis, com a prática regular de exercício físico e uma alimentação cuidada com um aporte adequado de cálcio. Pode-se hoje afirmar, de acordo com as publicações internacionais, que a acção das isoflavonas de soja nos afrontamentos está demonstrada de forma objectiva por diversos estudos clínicos recentes.
    Da mesma forma, na manutenção do capital ósseo as isoflavonas têm um efeito comprovado, na condição de se fazer uma utilização prolongada e em dose suficiente. Quanto ao interesse da soja na prevenção de outros tipos de cancro, existem actualmente numerosos estudos piloto que permitem lançar bases de uma acção preventiva interessante. No entanto, ainda permanecem muitas interrogações, em particular, qual a altura da vida em que é importante consumir estas substâncias para que funcionem como verdadeiros protectores.

    Autora: Jacqueline Dias Fernandes – Nutricionista

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